Não basta enxergar. É preciso olhar o que se vê.
José Saramago, em seu "Ensaio sobre a cegueira", nos brinda com uma reflexão bastante interessante: "Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara."
Usamos os verbos "ver" e "olhar" indistintamente como sinônimos, mas parece haver uma diferença sutil. "Ver" significa meramente dirigir os olhos para alguma coisa. "Olhar" significa apreender algo da realidade, estabelecer um conhecimento. Ver é sintético, olhar é analítico.
O profissional de Processos, ao entrevistar os agentes de um processo para compreender suas atividades, deve lançar sobre os fatos um olhar contemplativo, curioso, crítico a fim de não correr o risco de ver sem olhar.
Lembro de uma experiência em uma fábrica na qual fiquei responsável por descrever os passos que os motoristas de caminhão executavam ao chegar na área de controle de conhecimento de carga até às docas de descarregamento. Passei horas entrevistando-os e, em seguida, elaborei um belo documento descrevendo os relatos, com diversos diagramas e efeitos especiais na apresentação. Qual não foi minha surpresa quando os funcionários mais antigos simplesmente riram de minha apresentação, pois sabiam muito bem que, na prática, não acontecia nada daquilo. Um consultor mais experiente me levou com ele para fazer um novo mapeamento do processo, dessa vez, executando junto com o motorista, cada passo de suas atividades. Uau! O que os motoristas haviam me passado e também minha interpretação dessas informações era radicalmente diferente do que acontecia realmente. Havia visto, mas não olhado.